segunda-feira, 23 de maio de 2016

No grito

 Folha de S.Paulo

O governo Temer tem pouco mais de uma semana, mas sua equipe diz que parece já ter dois anos. Exagero, mas a coleção de recuos e concessões em tão pouco tempo lembra de fato uma administração com mais horas de cadeira.
Não fossem a situação de emergência em que o país se encontra e a expectativa de que tire o país do buraco, Temer estaria namorando cedo demais com um forte desgaste com as idas e vindas de seu governo.
O recuo na extinção do Ministério da Cultura foi apenas o último de uma série, mas sinaliza algo preocupante. Na era Temer, basta gritar para levar? O setor cultural esperneou, invadiu prédios públicos e ganhou a parada em dois tempos.
Gente séria e responsável foi contra a decisão do presidente interino de acabar com a pasta da Cultura. Tudo bem. Mas fica a pergunta: e os Direitos Humanos, Ciência e Tecnologia e Igualdade Racial não merecem também ter seus ministérios?
Antes da resposta, lá vai uma constatação. Todo mundo quer reduzir o tamanho do Estado, critica que ele é grande demais, mas desde que não toquem no seu pedaço.
Tal incoerência se repete em outras áreas. É consenso que o Estado deixado por Dilma Rousseff está falido, que é preciso reformar áreas como a Previdência Social, mas ninguém quer ceder, perder parte de benefícios que, em alguns casos, estão muito mais para privilégios.
Enfim, voltando ao começo, recuar nem sempre é um defeito. Às vezes, pior é insistir no erro, não reconhecê-lo e detonar o país. Mais ou menos como fez a presidente afastada. Ou seja, recuo pode ser também virtude de que tem a humildade de reconhecer seus equívocos.
O problema é quando se confunde com tibieza diante de quem grita mais alto. Por sinal, dizem que o deputado André Moura só virou líder do governo na Câmara depois que seu padrinho Eduardo Cunha bateu boca com um ministro e ganhou. Aí é bem preocupante e muito ruim. 

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