domingo, 20 de março de 2016

Moro, de ídolo anti-PT à pecha de populismo jurídico


Juiz responsável pela Operação Lava Jato é alvo de críticas por politizar investigação

Nas multitudinárias manifestações contra o Governo Dilma Rousseff e o PT no domingo 13 não houve espaço nem para a oposição brilhar. O protagonista absoluto, elevado ao panteão dos heróis da pátria no imaginário dos que querem o impeachment de Dilma, foi o juiz federal da 13ª vara de Justiça de Curitiba Sérgio Moro, responsável por julgar os processos da Operação Lava Jato. Às vésperas dos dois anos de investigações do gigantesco esquema de corrupção da Petrobras, completados nesta quinta-feira, ele colhia os louros: seu rosto era estampado em camisetas com os dizeres “In Moro we trust”. Bonecos infláveis, nos quais aparece vestindo roupa de Super-Homem verde e amarelo, contrastavam com o outro símbolo da crise: os do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vestido de presidiário.
No dias que se seguiram, Moro faria sua jogada mais ousada e arriscada: a divulgação de uma coleção de áudios colhidos na investigação de Lula, um deles incluindo inclusive a presidenta Dilma. O ato espetacular pelo timing político na última quarta-feira — no mesmo dia do anúncio da nomeação do ex-mandatário como ministro, que deixaria Lula fora de seu alcance — marcaria de vez uma inflexão: o crescimento das vozes que questionam se as decisões de Moro e dos procuradores da Lava Jato cruzaram limites legais para chegar a seus objetivos. Isso aliado à uma excessiva proeminência pública indicava que uma sorte de populismo jurídico poderia comprometer a operação.
Moro nunca escondeu suas inspirações. O juiz da cidade paranaense de Maringá, de ascendência italiana, escreveu longo artigo sobre a Operação Mani Puliti (Mãos Limpas), realizada na Itália na década de 1990 e que terminou com dezenas de políticos presos, mas não com a reforma do sistema político italiano. No texto do juiz formado no Paraná e com estudos em Harvard, um ponto central da argumentação era o caráter estratégico do apoio popular numa investigação desta envergadura. Pode-se ver claramente como isso foi utilizado nos 24 meses de Lava Jato, tanto por Moro quanto pelos procuradores que lideram a investigação. As inúmeras fases da operação foram acompanhadas de coberturas igualmente monumentais. Na maior parte dos autos e delações não havia sigilo e a imprensa poderia ser alimentada diariamente com novos desdobramentos. (Do El País)

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